segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Hipóteses sobre o futuro do jornalismo


No momento em que lançamos um novo programa para ampliar nossa rede de colaboradores, queremos compartilhar um pouco mais profundamente nossas visões sobre os rumos do
internet
A internet abre um novo universo de informações
jornalismo, na era das redes. Pensamos que a comunicação comercial de massas deixou, por diversas razões, de cumprir o papel destacado que desempenhava na democracia – também ela em crise, aliás. Porém, imaginamos que este papel – examinar e relatar realidades sociais complexas, de modo compreensível e atraente, no tempo em que ainda é possível interferir sobre o desfecho dos acontecimentos – pode ser exercido por outros atores.
Acreditamos na força da comunicação compartilhada. Se o futuro dainternet está em aberto e em disputa (esta é uma das encruzilhadas mais importantes de nossa época…), é porque a rede foi apropriada, também, pelo ser humano, em seu desejo de multiplicar conexões diretas, sem a intermediação de grandes estruturas empresariais ou burocráticas. Esta libertação se dá em múltiplos terrenos.
Nas comunicações, está ruindo a crença castradora que associava “verdade” ao que “saiu no jornal” – e, portanto, elevava um pequeno oligopólio de empresas à condição de narradoras exclusivas de nosso presente.
Todos podemos assumir este papel. O universo de informações que circula na internet é infinitamente mais vasto e mais rico do que o que está nas tevês, revistas e jornais. Os blogs e redes sociais revalorizaram a narrativa sobre a vida social. Mas foram muito além disso. Tornou-se possível encontrar, na rede, informação relevante sobre qualquer tema com peso na construção do futuro coletivo. Do novo Código Florestal brasileiro às descobertas e polêmicas sobre a velocidade dos neutrinos. Das alternativas diante da crise financeira internacional à discussão sobre o que fazer com as reservas de petróleo brasileiras no pré-sal. Do questionamento às patentes farmacêuticas à multiplicação de iniciativas ligadas à cultura das periferias, ou aos coletivos voltados à arte questionadora.
Neste universo ultra-expandido, o jornalismo precisa encontrar um novo sentido. Já não lhe cabe nenhuma exclusividade na narração da vida. Mas ele pode articular a informação disponível – reunindo, reprocessando e valorizando a infinidade de dados que circulam pela rede e passam quase sempre despercebidos.
Num mundo de tempos cada vez mais exíguos, os seres humanos não podem conhecer sequer uma ínfima fração das novas informações disponíveis. Surge o conhecido paradoxo do caos comunicativo. Há hiperabundância de dados sobre todos os fatos – porém, é cada vez mais difícil estabelecer bases comuns para dialogar e interferir sobre eles.
Um novo jornalismo não terá a pretensão de organizar este universo infinito e em permanente expansão – mas, sim, pode oferecer narrativas capazes de sensibilizar e dialogar com públicos específicos. Outras Palavrasquer cumprir um papel neste cenário.
Antonio Martins é jornalista integrante da Associação Outras Palavras (ponto de cultura, jornalismo e mídias livres) e membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial.

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