sábado, 13 de agosto de 2011

As boas do Dr. Arcinélio Caldas.



AS PINGAS

                                             Nasceu Maria Luiza Beltrão, mas o bairro inteiro só a conhecia por Marinete. Não me perguntem por quê. Desconheço a origem da corruptela. Era uma moça alegre, brava, destemida, fazia presença em todos os lugares como se fora uma promoter de eventos em casas de festas.

                                               Adorava as brincadeiras, até as de mau gosto. Estava sempre disposta e apreciava uma boa pinga acompanhada de tira-gosto de primeira linha, principalmente frango do pântano e tambaqui de capacete. Com o tempo descobriu sua cara metade e contraiu matrimônio.

                                               O marido, advogado compenetrado, muito sério, passava por algumas situações inusitadas ao lado da adorada esposa e companheira de todas as horas, mais em decorrência de seu temperamento introvertido, do que pela espontaneidade da consorte, que comunicativa e exalando alegria muito o ajudou no escritório. Conheci o Osvaldão como era chamado, numa hasta pública de falência, onde meu cliente pretendia arrematar uma fazenda no Estado de Minas Gerais. A partir daí, criou-se entre nós a empatia e meses depois já frenquentava sua casa.

                                               Como não gosto de fazer visita e chegar de mão vazia, sabendo da preferência de Marinete, outro dia levei dois litros de aguardente alambicada em minha terra natal e curtida durante três anos em barril de carvalho originário da margem direita do escocês rio Glasgow. Uca classificada como melhor do mundo.

                                               Logo na chegada, para esquentar o frio que fazia naquelas bandas das alterosas, lá se foi um litro do destilado, o outro presenteei o casal amigo, entregando-o nas mãos de Marinete, que o beijando, agradeceu muito, guardou a garrafa e saiu para atender compromisso na faculdade.  Logo após sua saída chegou nosso amigo comum Kaká. A conversa se alastrou e Osvaldo então resolve abrir a segunda botija de cana por mim presenteada e, em poucas horas levada ao fundo com o casco sendo atirado ao lixo.

                                               Ao retornar da Faculdade, Marinete olhou-nos, desconfiou da bebedeira, viu a garrafa vazia no lixo e indagou ao marido beberrão: “Osvaldo onde está a minha pinga?” Osvaldão já nas últimas, retruca: “Minha filha, o Caldas trouxe as pingas para mim.” “Para você uma ova, ela é minha. Eu quero a minha pinga.” Arrostou.  Diante de tanta truculência, antes que presenciássemos um entrevero de proporções incontroláveis e imprevisíveis, procurei botar pano quente e perguntei a Marinete: Vocês não são casados com comunhão de bens? O que é seu não é dele também? Ao que ela me respondeu: “Tudo bem Caldas, o que é dele é meu, o que é meu é dele, menos as pingas viu? Se  está sentindo as dores dele,  se vira nos trinta e me dá outra garrafa tá?”    

Arcinelio Caldas - advogado da CEF e contador de causos. (08/2010)

Um comentário:

REFLEXÕES disse...

Esta é típica dele sim!
Gostei, me deu saudades dele.
Abrçs