sábado, 17 de outubro de 2009

Uma croniquinha pra não enferrujar...









Nunca soube muito bem precisar o valor das coisas. Sempre me foi muito difícil entender tantas correrias e regras. Talvez, aí, eu já me sentisse anormal nesta vida. Na verdade, não sabia o quanto tudo isto iria me custar.

A lembrança nítida da primeira mudança num burrinho sem rabo, fosse mais esperto, já seria um bom sinal para tomar atitudes como apagá-la e ver coisas mais comuns. Afinal, eu tinha apenas um ano de vida e esta imagem não poderia ser tão forte. Mas ela se encaixava muito bem com o barrote mestre que se envergou numa noite chuvosa sobre nossos corpos no mesmo quarto onde nasci.

Ele nos avisava: ”Não posso mais suportar a vida a qual lhes sirvo de teto”. Tudo tinha a ver com o burrinho sem rabo. Ele apenas nos ajudava a cumprir a orientação daquele barrote que, escapulido da ponta da parede, gastou toda a sua energia para agüentar o pequeno conjunto de telhas francesas. Dormíamos com a cabeça voltada para a rua, pois apenas na saída final devíamos manter os pés para a porta da despedida. Eu, num berço do qual não me lembro bem os detalhes, assisti àquele barrote arreando e ficando como um dedo em riste que falava mais forte ainda: ”Vão embora daqui”.

Com certeza, aquele barrote foi quem me deu os primeiros ensinamentos de vida.

Não entendia bem por que precisávamos de tantas caixas de papelão, muito menos a visão de todas as roupas do nosso armário resumidas em trouxas feitas com os lençóis que tanto trabalho davam no molho, no quarar, no enxaguar, para finalmente ser estendidos como bandeiras sob o sol e o sopro do nordeste que se enfrestava no pequeno corredor quintal de nossa meia água.

Durante anos senti saudade daquela ampla casa por onde escorregava os meus joelhos e rapidamente, da cozinha, encontrava os meus poucos brinquedos no chão do quarto. Demorei muito tempo para entender que eu — tal qual um brinquedo — é que era muito pequeno naquela minúscula casinha de três cômodos, sem citar o quartinho e o corredor (meu grande quintal de nove metros de comprimento por pouquinho mais de um de largura).

A carroça do burrinho sem rabo tornou-se imensa quando percebi que toda a nossa vida cabia sobre ela. Menos o Mimi. Mimi só poderia ir no meu colo. Mas para onde?

Foi quando entendi que, cumprindo a ordem do velho e cansado barrote, ganharíamos outra casa. Sem muito saber o quê e o porquê, abracei o meu gatinho com um dos braços, enquanto a outra mão era firmemente segura pela da minha mãe.

Minhas duas irmãs, ainda bem crianças, esperavam ansiosamente pelo carregamento que iria mobiliar e decorar a nova casa, a qual, durante dois dias, cuidaram de espantar as poeiras e lustrar o chão com cera misturada com vermelhão e gasolina.

Durante o percurso de uns vinte minutos, tive a minha frente o meu primeiro herói. Era o burrinho sem rabo que, de uma só vez, conseguia carregar as nossas vidas.

Abraçado ao Mimi, não pude fazer força para ajudar a pôr a carroça mais próxima ao muro que limitava com a calçada a nossa nova casa. Porém lembro-me de solícitos meninos que, com algazarra, ajudaram a colocá-la bem encostada à pequena muralha de não mais de um metro de altura. Eles se divertiam com as trouxas que caiam silenciosas e com a barulhenta trempe que ainda, pela rapidez, lhe tinha como parasitas conchas e uma velha leiteira feita a partir de uma lata de gordura de coco.

Fiquei deslumbrado com a nossa nova casa. A sua largura me dava uma diferente sensação de liberdade em relação à casa dos meus joelhos arranhados pelo engatinhar. O corredor se transformara em um quintal muitas vezes maior do que o meu antigo corredor. De qualquer parte poderia ser visto, devido à distância da casa pro muro.

Descarregamos a nossa casa sob o olhar curioso dos nossos novos companheiros de aldeia. Cada coisa que descia já tinha um lugar pré-estabelecido pelas minhas irmãs. Tudo tinha o seu lugar. O que tornou tudo muito rápido.

Em tempo que não sei prever, mas muito curto, o novo cenário se montou.

Cuidei logo de alojar o Mimi debaixo do tanque numa das caixas de papelão enquanto minha mãe esquentava a água num moderno fogão a querosene para o café do último lanche do dia. Como mistura, tínhamos a fartura de várias dúzias de bolachas daquelas gordas e em forma de trapezóide.

Ali rompia precocemente com os sonhos e as fantasias que floreiam as cabecinhas infantis. O lúdico nunca mais deixou de ser o mais presente em meu desenvolvimento.

Não sentia a falta do Papai Noel nem do bolo dos meus aniversários. A eles me vinha sempre a imagem da minha mãe esforçada para concretizá-los. Nada valia a pena se dependesse de um suor a mais, numa época onde estarmos os quatro juntos era mais importante.

E assim eu fui crescendo... Empírico, mas com a invasão permitida pela heróica fé herdada do ventre materno que traz um Cristo e seus personagens para uma vida que me acompanharia até pisar a adolescência. Como é forte e deixa imagens até hoje num corpo ateu!

O mesmo corpo que se deliciava aos ensinamentos engraçados e cantados do Carequinha, às melodias românticas dos Vip’s; às mensagens que Saint-Exupéry nos ditava encarnado no Pequeno Príncipe (nada recomendáveis à moderna e feroz sociedade competitiva de hoje, afinal de contas elas nos tornam humanos demais para sobrevivermos nesta selva insana).

Mas no fundo, no fundo, uma vida que aos olhos alheios refletia uma criança e um adolescente sempre normal. Sempre ligado ao mundo das artes e fascinado pela política. Talvez por não entender o poder ostentado pelos salafrários militares e seus seguidores, infinitamente contrastante com as dificuldades de minha casa e de praticamente toda a minha cidade.

Percebo-me, de repente, nos movimentos estudantis e comunitários. Sem saber como, aos onze anos representava meus colegas de ginásio defendendo interesses que confesso não entendia muito bem. Um desses me marcou. Foi quando fui convocado em sala de aula para deliberarmos sobre se a caixa escolar bancaria ou não a melhor urna que houvesse no mercado para o sepultamento de um colega. Pois, segundo a sua mãe, também presente na reunião, a sua religião previa que Cristo viria resgatar seus corpos para estarem sempre ao seu lado. A mim não importava qual era o fundamento, sempre votava a favor dos colegas. Era o entendimento.

Esse caminho me aproximou de ídolos que expressassem o não ao sistema. Aprendi a amar Pablo Milanês e Chico. Fiquei viúvo de Elis e chorei ouvindo Cálice. Nunca me esquecerei de Deus lhe Pague. Do lotado Ginástico Português aplaudindo a Ópera do Malandro. E circos como o Grande Comício pelas Diretas, na Cinelândia, e os Caras Pintadas expulsando o não menos pior Collor.

Foi assim até anteontem... Hoje pouco mudou. Os personagens são outros, as cenas semelhantes e o povo cada vez mais adestrado. Mas os meus ídolos e meus cantos, ainda que na memória, entoam serenamente as esperanças que sonhávamos.

Inda corro atrás procurando entender um pouco mais os mecanismos humanos que movem a vida. Cada vez que me aprofundo e descubro um ponto, me redilapido para fugir da mesquinhez vulgar da qual, tenho certeza, também possuo talhadas.
Ainda vejo fortes o barrote e o Burrinho sem rabo...

5 comentários:

Rosângela disse...

Enferruja não...

Anônimo disse...

Quanta hipocrisia...

Rosângela disse...

Ah... tomara que enferruje a foto. Não queremos ver mais fotos assim...
A foto pode enferrrujar.


bonced

ceder é bom!

Marcos Valerio disse...

Muito bom, sentar-se (com hifen?) a beira da estrada para rever os pontos de partida e entender alguns de chegada... Parabéns!

Joca Muylaert disse...

Amigos, isto é só um texto.
E mais: a foto foi capturada na internet.
Valeu a solidariedade expressa nas postagens que não pude publicar.
Mas escrita é isto.